Os jardins do Centro de Memória de Vila do Conde já estão preparados para acolher, esta noite, um dos eventos mais emblemáticos da região. A 21.ª edição da Queima do Judas não será apenas uma manifestação de cultura popular.
Este ano, o evento assume uma carga emocional ao transformar-se numa homenagem a Isabel Lhano, figura incontornável da terra que partiu há pouco mais de dois anos.
O espetáculo destaca-se pelo seu caráter intergeracional e inclusivo, reunindo cerca de duas centenas de participantes. No palco improvisado entre o verde dos jardins, a diversidade é a regra: a artista mais jovem tem apenas cinco anos, enquanto o mais experiente soma já sete décadas de vida. Durante três meses, este grupo heterogéneo trabalhou em conjunto para erguer uma produção que funde teatro e dança, música ao vivo, artes plásticas e artes circenses.
Isabel Lhano, pintora, feminista e ativista ferrenha da liberdade, é o fio condutor desta edição. Amiga próxima de figuras como o escritor Valter Hugo Mãe, era conhecida pelo seu “inconformismo” e pela energia que dedicava às causas sociais e humanistas.
Pedro Correia, diretor artístico da Nuvem Voadora – Associação Cultural, explica que a escolha do tema foi natural: “queremos celebrar a Isabel e passar essa sua energia de batalha constante pela liberdade e pela justiça”.
A narrativa do espetáculo estabelece um paralelo entre a vida da artista e o simbolismo da Queima do Judas: a transição do inverno para a primavera, representando a morte e o renascer constante.
A Queima do Judas funciona também como um motor de coesão social. Para João Labriola, brasileiro residente em Portugal há seis anos, participar no espetáculo foi uma porta de entrada para as tradições lusas e para a história política do País, através da vida de Isabel Lhano.
Já para a pequena Madalena, de nove anos, o evento é uma oportunidade de descoberta. Embora não tenha conhecido Isabel Lhano pessoalmente, a vivência dos ensaios deu um novo sentido aos livros de arte que já via em casa. “É fixe! Aprendi muitas coisas e conheci muitas pessoas novas”, resume com o entusiasmo próprio de quem já incluiu a Queima no seu calendário anual.
Como dita a tradição, o espetáculo – agendado para as 22:30H – culminará com a leitura do testamento do Judas. Este é o momento em que a sátira toma conta da noite, expondo, com humor e ironia, os “males” e os episódios mais marcantes da vida do concelho, encerrando a celebração com nota de crítica social e renovação espiritual.