Os corpos de duas mulheres, de 80 e 60 anos, foram descobertos na manhã desta quinta-feira em avançado estado de decomposição, no interior da sua habitação na Trofa, distrito do Porto.
As autoridades estimam que a mãe e a filha estivessem mortas já há cerca de nove meses, mas, apesar de o cenário ter levantado alarme, a Polícia Judiciária (PJ) não encontrou, até ao momento, indícios de crime.
A operação de entrada na residência ocorreu por volta das 10:30, envolvendo a Polícia Judiciária (PJ) e os Bombeiros da Trofa, após a persistência de suspeitas sobre o paradeiro das mulheres. No interior da casa, os operacionais depararam-se com uma realidade dura: um dos corpos encontrava-se no corredor e o outro na cama. A mãe, de 80 anos, estava acamada e dependia dos cuidados da filha, de 60, que assegurava a sua assistência sem qualquer apoio médico domiciliário.
O caso, no entanto, já tinha motivado a intervenção das autoridades meses antes. No dia 14 de abril, após alertas dos vizinhos devido ao aparente abandono do exterior da habitação, a Guarda Nacional Republicana (GNR) deslocou-se ao local. Na altura, os militares não detetaram odores suspeitos e ninguém atendeu as chamadas. Após recolherem depoimentos da vizinhança no dia seguinte, o auto foi reencaminhado para o Ministério Público, tendo a investigação culminado agora na intervenção da Polícia Judiciária (PJ).
A família, originária de Espinho, residia naquela zona da Trofa há cerca de duas décadas. Segundo relatos de vizinhos, a dinâmica familiar mudou após a morte do pai.
Maria das Dores Silva, vizinha há 15 anos, recorda que a mãe costumava ser comunicativa antes de adoecer, ao passo que a filha sempre foi “mais reservada”. Esta última trabalhava no Porto – a quase 40 quilómetros de distância – e mantinha uma rotina discreta, limitada a saídas para o trabalho e para as compras.
“Dizia-se que a mãe já poderia ter morrido e que a filha tinha deixado a casa. Mas ninguém imaginava que elas continuavam ali. Acabaram por ficar abandonadas”, lamentou a vizinha, chocada com o desfecho: “nem quero acreditar: estive aqui tantos meses com duas pessoas mortas ao lado”.