Vila do Conde recebe uma exposição de Julio (1902-1983) que, confrontando a obra desse pintor com a de modernistas como Amadeo e Almada Negreiros, quer assegurar-lhe junto do grande público o reconhecimento que “uma má crítica” inviabilizou.
A análise é do curador da mostra “Julio e o Modernismo Português”, que, até 25 de janeiro, reúne 70 obras desse autor e 80 de outros 23 modernistas portugueses na Galeria Julio/Saul Dias – que, na referida autarquia do distrito e Área Metropolitana do Porto, está focada na obra de Júlio Maria dos Reis Pereira (conhecido na pintura como Julio e na poesia como Saul Dias).
“O Julio é uma figura central do Modernismo português, mas nunca se tornou conhecido entre o grande público por culpa de um crítico que, sem ver a sua obra, o classificou como um pintor naïf de província, coisa que ele não era”, diz o curador, Bernardo Pinto de Almeida.
Na origem dessa recensão “totalmente desadequada” terá estado um diferendo pessoal entre o autor da crítica, José-Augusto França (1922-2021), e o fundador da revista literária Presença, o escritor José Régio (1901-1969), irmão de Julio.
O curador da exposição ressalva que, ainda em vida, o pintor viu a sua obra devidamente elogiada por artistas como Mário Cesariny, e chegou mesmo a ser premiado pelo Estado Novo, mas nota que, avesso ao regime de Salazar, ele se recusou a aceitar a distinção, o que, a juntar à sua personalidade “extremamente modesta” e discreta, “não ajudou nada” à sua promoção geral.
“O certo é que Julio foi autor de uma obra plástica absolutamente notável, tanto no âmbito da pintura como no do desenho e poesia”, garante Bernardo Pinto de Almeida. “É isso que justifica que os historiadores estrangeiros fiquem impressionados com a sua obra logo à primeira vista e não percebam porque é que, lá fora, nos seus países, não ouvem falar dele”.
Para ajudar a “corrigir essa injustiça”, a mostra da Galeria Julio vai agora reunir cerca de 150 trabalhos dos principais modernistas portugueses, com recurso ao espólio de mais de 10 instituições culturais de referência, entre as quais a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação de Serralves, a Fundação Arpad Szenes / Vieira da Silva, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardoso.
Na exposição, que abre com uma performance do pianista Mário Laginha, dado o apreço de Julio pelo jazz, o objetivo é viabilizar “um diálogo com Julio” por parte não apenas dos já referidos Cesariny e Amadeo, mas também de Almada Negreiros, Aurélia de Souza, Cruzeiro Seixas, Dominguez Alvarez, Eduardo Viana, Fernando Lanhas, Mário Eloy, Nadir Afonso e Santa-Rita Pintor.
Entre excertos de poesia assinados sob o pseudónimo Saul Dias e exemplares originais com algumas das capas mais modernista da revista Presença (editada entre 1927 e 1940), a exposição exibirá “um inédito de Julio nunca antes exposto” e obras que, por integrarem coleções particulares, também poucas vezes estiveram disponíveis ao olhar do público.
Foi uma dessas coleções, aliás, a emprestar à galeria “O fumador”, quadro de Julio que pertenceu ao realizador Manoel de Oliveira e que o cineasta terá adquirido após uma visita à casa de José Régio, onde teve o primeiro contacto com as criações do pintor modernista e recolheu imagens para a curta-metragem documental “As Pinturas do Meu Irmão Julio” (1965).
Quanto às 80 criações dos outros modernistas expostos, Bernardo Pinto de Almeida assegura que “não são obras melhores”, selecionadas para, em contraste, favorecerem a impressão causada pelas telas de Julio. “O que se pretende é que o diálogo entre os quadros dele e os dos nossos gigantes modernistas portugueses deixe bem claro o seu mérito e como ele merece ter na História da Arte o mesmo espaço que os artistas do seu tempo”, defende o curador.
Entre as características que justificam esse reconhecimento, o curador destaca a coragem das escolhas temáticas de Julio: “As suas paisagens têm o mesmo tamanho que as do Mário Eloy, por exemplo, e, em certa medida, os seus nus até são mais arrojados do que os do Almada”.
Julio Maria dos Reis Pereira nasceu em Vila do Conde em 1922 e formou-se em Engenharia Civil, tendo desenvolvido essa profissão em paralelo ao que a galeria com o seu nome considera “uma intensa atividade artística e literária, marcada pela independência e pela ligação ao movimento da revista Presença, de que foi um dos colaboradores centrais, ao lado de José Régio”.
Nesse contexto, frequentou a Escola de Belas-Artes do Porto e também a Académie de la Grande Chaumière, em Paris, expondo regularmente desde a década de 1930, tanto em Portugal como no estrangeiro.
A sua obra já foi objeto de retrospetivas em instituições como a Gulbenkian, o Museu de Évora e a Cooperativa Árvore, e ainda recentemente esteve exposta em Espanha no Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia. Segundo a Galeria Julio, isso deve-se à dimensão plástica e poética do seu trabalho, que o consagra como “um dos criadores mais livres e originais da modernidade artística portuguesa”.